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O QUE NÃO CABE NA MANCHETE

16/03/2026 às 16:25 // .

Comenta-se nas filas das farmácias, nas salas de espera, nas conversas rápidas entre um espirro e outro. Há dias em que a cidade parece andar mais devagar — não por escolha, mas porque os corpos pedem pausa.

Comenta-se sobre febre, sobre vozes roucas, sobre aquela sensação de cansaço que faz o chão parecer um pouco mais distante dos pés. Comenta-se sobre gente que insiste em levantar mesmo quando o corpo pede descanso.

Mas comenta-se, também, sobre outra coisa.

Sobre a dificuldade de transformar o mal-estar em algo reconhecido. Sobre quando a dor precisa ser explicada mais de uma vez para parecer legítima. Sobre quando o cansaço precisa quase se provar diante de quem deveria, antes de tudo, escutar.

Em tempos de vírus que viajam rápido, esperar que alguém diminua o passo por alguns dias não deveria parecer exagero. Às vezes, parar não é fraqueza — é cuidado. Com o próprio corpo, mas também com os outros.

Porque há quem trabalhe cercado de crianças. Há quem cuide de idosos. Há quem passe o dia inteiro dividindo o mesmo ar com muitas pessoas.

E nessas horas, o descanso deixa de ser apenas individual. Ele se torna coletivo.

Ainda assim, comenta-se que nem sempre esse entendimento chega da mesma forma para todos. Que, às vezes, o sofrimento parece pequeno demais para merecer pausa. Que, em certos momentos, o pedido de cuidado encontra mais descrença do que empatia.

Talvez seja porque a gripe sempre foi tratada como algo banal. Algo passageiro. Algo que se resolve com alguns dias e um pouco de paciência.

Mas, quando o corpo fala, ignorar também tem consequências.

Comenta-se muito sobre produtividade, sobre responsabilidade, sobre cumprir o dever. E tudo isso importa, sem dúvida. Mas há um outro tipo de responsabilidade que raramente vira conversa: a de reconhecer quando alguém precisa parar.

Porque cuidar da saúde nunca foi apenas sobre remédios ou diagnósticos.

Às vezes, começa com algo muito mais simples: acreditar quando alguém diz que não está bem.

 

Por Jaqueline Debald, escritora e autora de cinco livros publicados. Observadora das ruas, dos silêncios e das pequenas revoluções que acontecem na vida comum, escreve para transformar sentimentos em reflexão e pertencimento. Para saber mais, acesse: https://sites.google.com/view/escritorajaquelinedebald