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O QUE NÃO CABE NA MANCHETE

30/03/2026 às 22:01 // .

Comenta-se: O Silêncio Também Fala
 
Comenta-se que a pior violência é aquela que grita.
A que explode, que escancara, que não permite ser ignorada.

Mas há uma outra, mais discreta, quase educada —
que se instala nos cantos, nos intervalos, nas pausas.
Uma violência que não precisa levantar a voz,
porque encontra abrigo no silêncio de quem presencia.

Há quem se orgulhe de não ser.
Não ser racista.
Não ser homofóbico.
Não ser machista.

Como se isso bastasse para se manter do lado certo da história.

Mas o mundo não se divide apenas entre quem faz e quem não faz.
Existe um território vasto e confortável ocupado por quem assiste.

E assistir, às vezes, é colaborar.

É rir sem graça para não criar clima.
É fingir que não ouviu.
É mudar de assunto.
É pensar “não é problema meu”.
É escolher a própria paz em detrimento da dignidade do outro.

A omissão raramente parece violenta à primeira vista.
Ela não deixa marcas visíveis, não gera manchetes, não vira escândalo.
Mas sustenta — com uma eficiência assustadora — tudo aquilo que deveria ruir.

Porque toda estrutura injusta precisa de duas coisas para continuar de pé:
quem a alimenta
e quem a permite.

Existe um desconforto em se posicionar, é verdade.
Confrontar cansa, expõe, desgasta.
Nem sempre sabemos o que dizer, nem sempre temos as palavras certas.

Mas o silêncio, esse sim, sempre diz alguma coisa.
E, na maioria das vezes, diz exatamente o que deveria ser combatido.

Não se trata de perfeição, nem de estar pronto o tempo todo.
Trata-se de escolha.
Pequena, cotidiana, quase invisível —
mas profundamente decisiva.

Porque, no fim, não basta não ser.
É preciso se recusar a permitir.

E entre o barulho de quem fere
e o silêncio de quem consente,
a diferença é menor do que parece —
e a responsabilidade, muito maior do que se admite.

Porque, no fim das contas, o mundo não é definido apenas por quem levanta a voz para o erro —
mas, sobretudo, por quem decide não abaixar a sua diante dele.
 
Por Jaqueline Debald, escritora e autora de cinco livros publicados. Observadora das ruas, dos silêncios e das pequenas revoluções que acontecem na vida comum, escreve para transformar sentimentos em reflexão e pertencimento. Para saber mais, acesse: https://sites.google.com/view/escritorajaquelinedebald