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O QUE NÃO CABE NA MANCHETE

17/06/2026 às 22:26 // .

Comenta-se sobre bandeirinhas, fogueiras e comidas típicas. Mas talvez a maior tradição das festas juninas seja reunir pessoas em um tempo que insiste em separá-las.

As festas juninas sempre foram muito mais do que uma celebração popular. Elas carregam algo que anda cada vez mais raro: a capacidade de fazer as pessoas estarem verdadeiramente juntas.

Em volta de uma fogueira, pouco importa a profissão, a idade ou a condição financeira. Todos encontram espaço para uma conversa, uma risada, uma lembrança de infância ou um pedaço de bolo dividido entre amigos.

É curioso perceber como precisamos de datas específicas para desacelerar. Passamos boa parte do ano correndo, respondendo mensagens, cumprindo horários e atravessando os dias quase no piloto automático. Então chega junho, enfeita as ruas com bandeirinhas coloridas e parece nos lembrar de que a vida também acontece nos intervalos.

Talvez seja por isso que tantas pessoas guardem boas lembranças dessa época. Não é apenas pelo pinhão, pela canjica ou pela pipoca. É porque as festas juninas costumam nos devolver algo que a rotina insiste em tirar: o sentimento de pertencimento.

Vivemos cercados por tecnologia. Nunca foi tão fácil conversar com alguém que está longe. Ao mesmo tempo, nunca pareceu tão difícil estar realmente presente para quem está perto.

As telas aproximam distâncias, mas nem sempre aproximam pessoas.

As festas juninas fazem o caminho inverso. Elas nos convidam a olhar nos olhos, a compartilhar a mesa, a dançar mesmo sem saber os passos, a rir das brincadeiras e a descobrir que os melhores momentos quase nunca dependem de grandes produções. Dependem de companhia.

Talvez o verdadeiro significado dessas celebrações esteja justamente aí.

Em recordar que comunidade não é apenas dividir o mesmo espaço. É dividir histórias. É reconhecer rostos. É saber o nome do vizinho. É perceber que viver se torna mais leve quando existem pessoas com quem compartilhar o caminho.

Em um mundo onde tantas relações se tornaram rápidas e descartáveis, encontros têm se tornado um luxo. E talvez devêssemos tratá-los como tal.

Que junho não seja lembrado apenas pelas bandeirinhas coloridas espalhadas pelas ruas, mas também pela oportunidade de reacender aquilo que nenhuma fogueira consegue substituir: os laços que aquecem a alma.
Porque, no fim das contas, as melhores festas nunca foram feitas apenas de música ou de comida.

Elas sempre foram feitas de gente.
 
 
Por Jaqueline Debald, escritora e autora de cinco livros publicados. Observadora das ruas, dos silêncios e das pequenas revoluções que acontecem na vida comum, escreve para transformar sentimentos em reflexão e pertencimento. Para saber mais, acesse: https://sites.google.com/view/escritorajaquelinedebald