Jornal Ação de Barão/RS.


30/07/2026 às 09:25 // Eventos.
Quando os adultos conversavam entre si, o talian surgia naturalmente. Estava nos comentários sobre o trabalho, nos acontecimentos da comunidade, nas histórias de família e nos afazeres de todos os dias. Quando uma criança entrava na conversa, porém, a língua mudava.
O português assumia o lugar.
Foi assim que Mônica Valandro cresceu em Barão. Filha e neta de falantes, ela ouviu o talian durante toda a infância, mesmo sem ser incentivada a respondê-lo.
“De tanto ouvir, uma hora as palavras ganham sentido, se juntam e aquilo que inicialmente não era reproduzido oralmente em talian era compreendido mentalmente e armazenado com o tempo”, conta.
A língua permaneceu guardada. Primeiro como som, depois como compreensão. Na vida adulta, palavras, expressões e provérbios começaram a reaparecer com outro significado. Já não eram somente lembranças das conversas familiares. Passaram a explicar o sotaque, os costumes e parte da história de quem havia construído a comunidade antes dela.
“Comecei a compreender a pronúncia, o sotaque e a história dos meus antepassados, agora com orgulho e honra pelo que passaram e pelo que deixaram”, afirma.
Em maio de 2023, Mônica transformou essa relação familiar em ensino. Enquanto cursava graduação na área de línguas estrangeiras pela Unicentro e participava de um núcleo de estudos, aceitou a proposta da colega Aline para iniciar uma oficina de talian no contraturno escolar.
Tornou-se, então, a primeira professora da língua em Barão.
A polenta que as crianças ainda lembram
As primeiras aulas não começaram por regras gramaticais. Mônica apresentou às crianças a história da imigração, as razões que levaram tantas famílias a deixar a Itália, a travessia de navio e a chegada dos imigrantes à região.
Depois vieram as palavras, a pronúncia e as músicas.
Uma delas permaneceu na memória dos alunos.
“Até hoje as crianças lembram da ‘Bela polenta’ e de como encenar essa música foi divertido”, recorda.
A oficina durou poucos meses. Em julho de 2023 Mônica precisou interromper as atividades ao assumir outros compromissos profissionais. A experiência, porém, mostrou que o talian poderia chegar às novas gerações sem ser apresentado como uma obrigação distante.
Poderia ser ensinado por meio da música, da história local e das lembranças que ainda circulam dentro das famílias.
Quando falar a língua passou a representar um risco
O fato de muitos pais e avós falarem talian entre si, mas escolherem o português ao conversar com as crianças, não surgiu por acaso.
Durante o Estado Novo, entre 1937 e 1945, o governo de Getúlio Vargas implantou uma política de nacionalização que restringiu o uso de línguas faladas por comunidades de imigrantes. O português foi imposto nas escolas, professores foram substituídos e idiomas associados a países estrangeiros perderam espaço público.
Em Barão, segundo Mônica, o controle pode ter sido menos rigoroso do que nos grandes centros, entretanto, as consequências também chegaram ao município.
Muitos adultos haviam iniciado a vida escolar falando a língua aprendida em casa e enfrentaram dificuldades para compreender as aulas em português. Para evitar que os filhos passassem pelo mesmo sofrimento, decidiram não ensinar o talian da mesma forma.
“Os nossos pais falavam entre eles, mas automaticamente falavam com a gente em português, até para evitar que chegássemos à escola sem saber falar”, explica.
A medida protegia as crianças de uma dificuldade imediata, mas interrompia a transmissão da língua. Com o passar dos anos, parte das novas gerações passou a reconhecer palavras e compreender algumas conversas, sem conseguir falar.
Foi o que aconteceu com Mônica. É também o que ela tenta impedir que se repita com o filho Vicente, que já entende muitas coisas em talian, embora ainda não fale.
O grupo continua, mas sem as aulas de antes
Barão mantém um núcleo de pessoas interessadas no estudo e na preservação do talian. O grupo reúne principalmente moradores do Centro e de Arroio Canoas, com idades entre 20 e 60 anos.
Durante o período em que participavam de um curso a distância vinculado à Unicentro, os integrantes se encontravam quinzenalmente para acompanhar as aulas, realizar atividades e conversar.
Neste ano, o projeto responsável pela formação não foi contemplado com recursos. As aulas foram interrompidas e os encontros passaram a ocorrer com menor frequência.
O núcleo, contudo, continua ativo. Seus integrantes participam agora dos preparativos para o XXX Encontro Nacional dos Difusores do Talian e o V Fórum Nacional da Língua Talian, que serão realizados em Barão nos dias 27 e 28 de novembro de 2026.
Atualmente, não há crianças no grupo. A língua permanece mais presente no interior e entre pessoas que cresceram ouvindo os familiares. Ainda assim, Mônica percebe um movimento de recuperação.
“O resgate realizado nos últimos anos reacendeu essa chama. Existe muito orgulho pelos que vieram antes de nós e carregaram tantas dificuldades para que hoje pudéssemos estudar a língua com mais tranquilidade e consciência”, diz.
Barão receberá pesquisadores, professores e difusores
O encontro de novembro deverá reunir pesquisadores, educadores, comunicadores, artistas e representantes de projetos dedicados ao talian em diferentes municípios.
A programação ainda está sendo organizada e poderá sofrer alterações. Entre os temas previstos estão a imigração italiana, o plurilinguismo na educação, o talian como instrumento de pesquisa e trabalho, o ensino para crianças e o voluntariado como forma de manter a língua presente nas comunidades.
Também deverá ser apresentada a experiência de Barão com a cooficialização do talian e do hunsrik e com as primeiras iniciativas de ensino multilíngue.
Outro momento previsto tratará dos moradores de origem alemã que aprenderam talian na convivência com famílias italianas. O tema revela uma característica própria da formação de Barão: as duas culturas compartilharam trabalho, comunidades, comércio e relações familiares.
A programação preliminar inclui ainda debates sobre teatro, rádio, jornais e outras formas de transmissão da língua, além de missa em talian e entrega do Prêmio Mérito Talian. A relação definitiva de participantes, os locais e os horários serão divulgados após a conclusão da organização.
Uma língua reconhecida, mas ainda vulnerável
O talian surgiu no Brasil a partir do contato entre diferentes falares trazidos por imigrantes do Norte da Itália, principalmente do Vêneto, e o português.
Em 2014, foi reconhecido pelo Iphan como Referência Cultural Brasileira. Em Barão, tornou-se língua cooficial em 2021, ao lado do hunsrik.
O reconhecimento garante visibilidade, mas não assegura que a língua continue sendo falada. Para isso, ela precisa chegar às crianças.
Mônica defende que o município avalie a inclusão do talian no currículo escolar.
“Quem sabe ele possa fazer parte do currículo escolar do município, como forma de reconhecimento e valorização das raízes dos imigrantes que fundaram e ainda ajudam a construir Barão”, propõe.
Em novembro Barão será o ponto de encontro de pessoas que trabalham para manter o talian vivo. O desafio começa depois: fazer com que a língua deixe de existir somente na memória, nos eventos e nas conversas entre adultos.
A mesma língua que Mônica aprendeu ouvindo em silêncio precisa voltar a ser dirigida às crianças.
Serviço
XXX Encontro Nacional dos Difusores do Talian e V Fórum Nacional da Língua Talian
Data: 27 e 28 de novembro de 2026
Local: Barão/RS
A programação completa, com horários, locais das atividades e orientações para participação será divulgada em breve pela organização.
Imagem: Arquivo pessoal/Mônica Valandro.
Texto: Rita Santos para o Jornal Ação.

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