Jornal Ação de Barão/RS.

Entre em Contato

Telefone

(51) 99533-9584

Endereço

R. Profa. Maria Edite Selbach, 29/102 - Centro, Barão - RS, 95730-000.
Jornal Ação

PERSPECTIVA

19/04/2026 às 12:07 // .

Mães atípicas: entre a sobrecarga invisível e o amor que ressignifica
Por Aline de Carvalho Peres

Abril é reconhecido mundialmente como o mês de conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista. Nesse período, campanhas se intensificam, prédios recebem iluminação azul e o debate sobre inclusão ganha visibilidade. Ainda assim, por trás de cada diagnóstico, há uma presença que segue pouco observada: a mãe. Falar sobre autismo exige incluir, de forma direta, a maternidade atípica.

O diagnóstico não atinge apenas a criança. Ele reorganiza a vida familiar, altera rotinas e redefine prioridades. Na maioria dos casos, a mãe assume o papel central no cuidado, lidando com decisões constantes, informações complexas e a necessidade de adaptação imediata. Dúvidas, medos e reorganização prática se impõem desde o início.

O Abril Azul cumpre função importante ao ampliar o conhecimento sobre o autismo. No entanto, a conscientização precisa alcançar também quem sustenta o cuidado diário. É nesse ponto que o olhar se amplia e passa a considerar a estrutura que sustenta a criança.

A rotina dessas mães envolve atenção contínua aos estímulos, acompanhamento de terapias, relação com a escola e gestão de crises. Trata-se de uma dinâmica exigente, que frequentemente concentra múltiplas responsabilidades em uma única pessoa. Mesmo assim, essa realidade nem sempre é reconhecida de forma proporcional ao esforço envolvido.

Aceitação, tema recorrente neste período, não ocorre de forma imediata. Trata-se de um processo que demanda tempo, compreensão e acolhimento. A intensidade da rotina, somada à dificuldade de acesso a serviços especializados em muitos contextos, pode gerar desgaste emocional, ansiedade e esgotamento. O cuidado com quem cuida ainda ocupa espaço secundário.

O impacto social também se manifesta no olhar externo. Situações públicas que envolvem crises, dificuldades de interação ou comportamentos repetitivos costumam ser interpretadas de forma equivocada, associadas à falta de limites ou orientação. Esse tipo de julgamento produz isolamento e fragiliza ainda mais a rede de apoio.

Ao mesmo tempo, essa experiência desenvolve competências específicas. Mães atípicas constroem, na prática, uma leitura sensível do comportamento, ajustam expectativas e passam a reconhecer avanços que não seguem padrões lineares. Cada conquista assume valor concreto e redefine parâmetros de desenvolvimento.

Em Barão, iniciativas voltadas ao acolhimento e à escuta de famílias têm evidenciado a importância desse debate no contexto local, aproximando o tema da realidade da comunidade e reforçando a necessidade de suporte contínuo.

Conscientizar sobre o autismo implica garantir inclusão efetiva, acesso a tratamento e reconhecimento das redes de cuidado. Isso inclui tornar visível o papel de quem sustenta o cotidiano dessas crianças, muitas vezes sem divisão proporcional de responsabilidades.

Ampliar esse olhar contribui para o debate sobre saúde mental, suporte social e organização comunitária. A inclusão, nesse contexto, não se limita a estruturas formais. Ela se constrói a partir da forma como cada realidade é compreendida.

 

Sobre a autora
Aline Peres de Carvalho é psicóloga formada pela PUC-PR, com 29 anos de atuação clínica. Possui especializações em transtornos do humor, terapia cognitivo-comportamental para adolescentes e adultos, terapia dialética comportamental, orientação familiar, neurociência e comportamento humano, além de formação em psicologia sistêmica. Atua também na área organizacional, com experiência em desenvolvimento de grupos, coaching, mentoria e programas de psicoeducação voltados ao autoconhecimento, fortalecimento emocional e desenvolvimento de habilidades socioemocionais.