Jornal Ação de Barão/RS.


28/04/2026 às 21:07 // .
Comenta-se sobre autismo como quem cumpre um roteiro.
Fala-se de inclusão, de respeito, de empatia. Palavras bonitas, necessárias — mas muitas vezes vazias. Como se bastasse repetir conceitos prontos e espalhar símbolos coloridos para que tudo estivesse resolvido.
Mas o que não se comenta?
Não se comenta sobre o cansaço de quem precisa interpretar o mundo o tempo inteiro.
Sobre o esforço invisível de decifrar expressões, tons de voz, entrelinhas que, para muitos, são naturais — mas para outros, são um idioma estrangeiro.
Comenta-se pouco sobre o peso de parecer “normal”.
Existe uma cobrança silenciosa para que pessoas autistas se adaptem. Que aprendam a agir como os outros, que escondam seus desconfortos, que se moldem.
Mas quase nunca se questiona: por que o mundo não se adapta também?
Inclusão não é sobre fazer alguém caber.
É sobre parar de exigir que ela se encolha para existir.
Não se comenta sobre a solidão que não faz barulho.
Aquela de estar rodeado de pessoas e ainda assim sentir que não há conexão possível, como se houvesse sempre uma distância invisível entre si e o outro.
E talvez o mais incômodo:
comenta-se sobre autismo como algo a ser suavizado, tratado, corrigido.
Mas e se não houver nada a ser corrigido?
E se o problema não estiver na pessoa —
mas na forma limitada como aprendemos a enxergar o diferente?
Existe profundidade onde muitos veem ausência.
Existe sensibilidade onde muitos enxergam frieza.
Existe mundo — inteiro — onde muitos insistem em reduzir.
Mas isso exige escuta.
Escuta de verdade.
Sem pressa, sem tradução apressada, sem a necessidade de encaixar tudo em algo confortável.
Comenta-se muito sobre autismo.
Mas quase não se ouve.
E talvez seja exatamente por isso
que o essencial ainda segue em silêncio.
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