Jornal Ação de Barão/RS.


07/05/2026 às 16:42 // .
Comenta-se que mãe é sinônimo de amor incondicional.
Mas quase nunca se comenta sobre o preço que se paga por isso.
Existe um tipo de cansaço que não aparece em foto de família.
Ele mora nos detalhes: na comida que esfria porque alguém chamou, no banho interrompido, no sono leve de quem nunca descansa por inteiro.
Mora na mente que não desliga, no corpo que continua mesmo quando já pediu pausa há dias.
Ser mãe, para muitas mulheres, é aprender a desaparecer sem sair do lugar.
É estar em todos os espaços — e, ainda assim, não estar em si.
Com o tempo, ela vira apoio emocional, agenda viva, solução rápida, porto seguro.
Mas raramente alguém pergunta: quem é o porto dessa mulher?
Porque existe uma expectativa silenciosa que pesa mais do que qualquer rotina:
a de que mãe aguenta.
A de que mãe entende.
A de que mãe não falha.
E quando ela falha — ou simplesmente cansa — vem a culpa.
Uma culpa construída aos poucos, reforçada por olhares, comentários, comparações.
Como se sentir fosse um erro.
Como se precisar fosse fraqueza.
Existe uma solidão específica da maternidade.
Não é a de estar sozinha — é a de não poder ser vulnerável.
É falar e não ser escutada de verdade.
É ser lembrada só na função, nunca na ausência dela.
E talvez o mais duro seja isso:
Muitas mães não querem reconhecimento grandioso.
Elas querem presença.
Divisão.
Cuidado de volta.
Querem não precisar adoecer para serem percebidas.
Neste Dia das Mães, talvez flores não sejam o gesto mais urgente.
Talvez o gesto mais radical seja enxergar.
Enxergar a mulher antes do papel.
Respeitar seus limites sem que ela precise gritar por eles.
Oferecer apoio sem que ela precise implorar.
Porque amor de mãe não deveria ser medido pelo quanto ela suporta,
mas pelo quanto ela também é sustentada.
E enquanto isso não muda, muitas seguem fazendo o impossível todos os dias —
com um sorriso que ninguém pergunta de onde vem,
e um cansaço que ninguém se responsabiliza.
Mãe também cansa.
Também precisa.
Também desmorona — mesmo que em silêncio.
E talvez, o mínimo que ela mereça…
é não precisar desaparecer para ser chamada de forte.
Por Jaqueline Debald, escritora e autora de cinco livros publicados. Observadora das ruas, dos silêncios e das pequenas revoluções que acontecem na vida comum, escreve para transformar sentimentos em reflexão e pertencimento. Para saber mais, acesse: https://sites.google.com/view/escritorajaquelinedebald
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